Saturday, May 10, 2008

Jaime da Silva Bonde, ou, Parte 2

Como vimos no post anterior, James Bond, nas mãos de Connery e Moore se tornou uma propriedade definitiva do povo britânico, e o o espião, em 1985, precisava de um novo intérprete. Moore, já desgastado e envelhecido, não era mais um rosto desejável para um agente secreto completamente dependente de charme. Em 1987, estreava The Living Daylights (perdoem-me, não me recordo do nome em português), com Timothy Dalton no papel de 007.

A era Dalton trouxe uma série de mudanças, algumas na direção da série, outras sinais dos tempos. Em meados dos anos 80, a AIDS começava a surgir como uma ameaça invisível, e parecia castigar a sociedade promíscua dos anos 70 e 80. Em função disso, Dalton foi o Bond que teve menos aventuras sexuais, geralmente atendo-se à uma cena com a mocinha principal do filme (geralmente, na franquia, há a tradição de, pelo menos, 3 cenas: Com uma garota desconhecida, com a mocinha e com a mocinha novamente, na cena final). Computando a onda politicamente correta da era Moore, na qual Bond mal bebia, não fumava e cortava no machismo, pode-se dizer, sem exageros, que o Bond vivido por Timothy Dalton se parecia muito pouco com o bastardo arrogante, misógino e cínico que Sean Connery imortalizou nos anos 60.

Outra mudança, relacionada à já citada mudança na direção da série, envolve o uso de roteiros mais sombrios, e ao mesmo tempo, voltados mais para a ação do que para a espionagem. Em Licensa Para Matar, Felix Leiter, clássico ajudante de Bond (funcionário da CIA) é assassinado. Em Living Daylights, de 1989, Dalton parece inseguro, pela primeira vez vemos Bond titubear em relação à sua vida, sua profissão, etc. Os vilões se tornaram mais realistas, como o traficante de armas americano Brad Whitaker e o general russo Georgi Koskov. Não eram exatamente pessoas reais, mas eram, sem dúvida, menos caricatos que personagens como o Satânico Dr. No e Blofeld. Vale notar que as mudanças geradas pela era Dalton viriam a ser utilizadas nas eras vindouras: Brosnan na ação e Craig no caráter realista e sombrio do personagem. All in all, Dalton não foi um mal Bond, foi apenas incompreendido.

No fim dos anos 80, Bond, que entrou como um vencedor, emergiu como um derrotado. O filme Licensa Para Matar foi um fracasso de bilheterias, as mudanças não agradaram ao público acostumado com a leveza cômica da era Moore e o colosso Bond passou a ser apenas uma lembrança. Seis anos se passaram e em 1995, resolveram revitalizar a franquia, desta feita com Pierce Brosnan no papel do agente no explosivo Goldeneye, que contava com música de abertura no melhor estilo diva, cantada por Tina Turner e um dos melhores vilões da franquia: Alec Trevelyan, o ex-006, traidor do MI6. Em 1997, a empresa britânica Rare lançou para o console Nintendo 64 o jogo Goldeneye, elevado por muitos ao status de melhor jogo do console, o que elevou o filme ao status de mito.

Brosnan foi um Bond amaldiçoado. Tinha o cinismo e a aparência necessários para o papel, mas teve o azar de mergulhar em roteiros bombas, como O Amanhã Nunca Morre e Um Novo Dia Para Morrer, de 1997 e 2002 respectivamente. Um Novo Dia Para Morrer era o 20º filme da franquia, e os produtores decidiram fazer deste uma homenagem a todos os outros. O que saiu, infelizmente, foi mais uma sátira do que uma homenagem. Bond começa o filme surfando, o que, por si só, já é assassinar o personagem. O filme segue com ele sendo capturado (!!) e preso (!!!!) por norte-coreanos (!!!?!?!) durante 14 meses (...). Uma tentativa de mudar o foco da série que deu errado (onde é que vimos isso antes?). O que segue a esta ofensa em película é uma trama envolvendo troca de rostos, palácios de gelo e o pior vilão da franquia, Gustav Graves. Com Die Another Day, Bond ameaçava cair novamente no esquecimento, pois a série começava a ser um pastiche de si mesma.

Pierce Brosnan foi afastado e em seu lugar foi escolhido Daniel Craig, que gerou uma resposta quase imediata de fãs do espião, criticando Craig por ser muito feio para o papel. Feio ou não, Craig conseguiu um feito até então inédito: mudar a estrutura da série e não ser um fracasso completo no processo com o filme Cassino Royale, de 2006. Provavelmente, o timing correto, o roteiro bem escrito e a temática bem selecionada sejam responsáveis por isso. O filme mostra um Bond iniciante, em sua primeira missão como agente 00, que é mandado para um cassino em Montenegro para impedir que um financiador de terroristas (LeChiffre) possa recuperar o dinheiro que perdeu em uma ousada manobra no mercado de ações. Bond aqui é humano, fica abalado após matar alguém, se apaixona, comete erros. O personagem é construído aos poucos, Bond aprende que a sutileza uma característica importante aos espiões, aprende que não pode se apegar às mulheres (pois ou elas serão mortas ou o trairão), mas ao mesmo tempo já mostra o ego inflado e a insubordinação, típicas do personagem. O fim do filme mostra a clássica frase ("Meu nome é Bond, James Bond") ao som do clássico tema do espião, marcando ali o renascimento da franquia. Que venha Quantum of Solace, previsto para o fim de 2008, também com Craig no papel de Bond.

Bem, esse post acabou saindo maior que a encomenda, então a análise do personagem fica pra parte 3. Obrigado leitor (es)!!

Friday, May 09, 2008

Bond. James Bond

Ian Fleming, em um momento de lucidez absoluta, decidiu condensar tudo o que um homem poderia ser em apenas uma figura. O espião com licensa para matar, a serviço da Inglaterra é o britânico mais relevante da humanidade. Sim, mais que o Paul McCartney. E sim, mais que o Robbie Williams, mas agora cala a boca, sua imbecil aí no fundo. É, você mesma.

Enfim, 007, como é identificado, passou por diversas fases, em uma nutshell, temos Sean Connery, com a era de ouro, machismo, alcoolismo, tabagismo, charme acima de qualquer coisa e diálogos mais afiados que um sabre de luz. Após alguns filmes, Connery começou a se aborrecer com o personagem e sua performance foi abalada. Era hora de chamar algum substituto à altura, alguém que pudesse preencher sua vaga com decência.

Era hora, mas não foi. Algum produtor, em uma demonstração completa de incompetência (e retardo mental) decidiu chamar Geoge Lazenby, que atuou apenas no filme 007: A Serviço Secreto de Sua Magestade. Para quem não conhece (grande parte da população), não é um filme ruim, ele tenta realmente dar uma chacoalhada na fórmula (Bond se casa, por exemplo) e conta com um vilão clássico (Ernst Stavro Blofeld, embora seja uma representação estranha, sem a S.P.E.C.T.R.E). O problema mora no fato de Lazenby ser tão carismático quanto um cactus sem os espinhos e pintado de verde limão, ao contrário do verde musgo natural. Lazenby foi demitido e Connery voltou para mais um filme (Diamantes São Eternos, um filme também com Blofeld, e provavelmente com a melhor música de abertura da franquia, cantada pela impecável Shirley Bassey). Aqui termina a era Connery.

Estamos em 1971, a franquia 007 já é gigantesca. Ser 007 é o sonho de 9 entre 10 homens (o homem que discorda também não recomenda Trident). Os estúdios da MGM convocam Roger Moore para o papel e, embora Moore tenha a expressividade de um boneco de cera sofrendo uma overdose de botox, ele protagoniza alguns bons filmes da série, e tem um estilo mais light. Algumas doses de comédia são inseridas aqui e ali, Moore bebe menos, fuma menos, é menos machista, é menos charmoso. Ele ganha mais aparatos tecnológicos, uma espécie de "meia na cueca", pois compensa a reformulação politicamente correta do personagem. Moore foi o ator que mais protagonizou filmes do 007, e seus maiores clássicos são Na Mira dos Assassinos, com Christopher Walken como vilão, Viva e Deixe Morrer, com trilha assinada por Sir Paul McCartney e Somente Para Seus Olhos. A era Moore transformou Bond de um gigante para um colosso, um monumento inglês inabalável.

No próximo post: A era Dalton, a reinvenção da era Brosnan e o início da era Craig. Além disso, uma análise profunda de Bond e o porque dele ser tão relevante para a humanidade.

Stay tuned.