Como vimos no post anterior, James Bond, nas mãos de Connery e Moore se tornou uma propriedade definitiva do povo britânico, e o o espião, em 1985, precisava de um novo intérprete. Moore, já desgastado e envelhecido, não era mais um rosto desejável para um agente secreto completamente dependente de charme. Em 1987, estreava The Living Daylights (perdoem-me, não me recordo do nome em português), com Timothy Dalton no papel de 007.
A era Dalton trouxe uma série de mudanças, algumas na direção da série, outras sinais dos tempos. Em meados dos anos 80, a AIDS começava a surgir como uma ameaça invisível, e parecia castigar a sociedade promíscua dos anos 70 e 80. Em função disso, Dalton foi o Bond que teve menos aventuras sexuais, geralmente atendo-se à uma cena com a mocinha principal do filme (geralmente, na franquia, há a tradição de, pelo menos, 3 cenas: Com uma garota desconhecida, com a mocinha e com a mocinha novamente, na cena final). Computando a onda politicamente correta da era Moore, na qual Bond mal bebia, não fumava e cortava no machismo, pode-se dizer, sem exageros, que o Bond vivido por Timothy Dalton se parecia muito pouco com o bastardo arrogante, misógino e cínico que Sean Connery imortalizou nos anos 60.
Outra mudança, relacionada à já citada mudança na direção da série, envolve o uso de roteiros mais sombrios, e ao mesmo tempo, voltados mais para a ação do que para a espionagem. Em Licensa Para Matar, Felix Leiter, clássico ajudante de Bond (funcionário da CIA) é assassinado. Em Living Daylights, de 1989, Dalton parece inseguro, pela primeira vez vemos Bond titubear em relação à sua vida, sua profissão, etc. Os vilões se tornaram mais realistas, como o traficante de armas americano Brad Whitaker e o general russo Georgi Koskov. Não eram exatamente pessoas reais, mas eram, sem dúvida, menos caricatos que personagens como o Satânico Dr. No e Blofeld. Vale notar que as mudanças geradas pela era Dalton viriam a ser utilizadas nas eras vindouras: Brosnan na ação e Craig no caráter realista e sombrio do personagem. All in all, Dalton não foi um mal Bond, foi apenas incompreendido.
No fim dos anos 80, Bond, que entrou como um vencedor, emergiu como um derrotado. O filme Licensa Para Matar foi um fracasso de bilheterias, as mudanças não agradaram ao público acostumado com a leveza cômica da era Moore e o colosso Bond passou a ser apenas uma lembrança. Seis anos se passaram e em 1995, resolveram revitalizar a franquia, desta feita com Pierce Brosnan no papel do agente no explosivo Goldeneye, que contava com música de abertura no melhor estilo diva, cantada por Tina Turner e um dos melhores vilões da franquia: Alec Trevelyan, o ex-006, traidor do MI6. Em 1997, a empresa britânica Rare lançou para o console Nintendo 64 o jogo Goldeneye, elevado por muitos ao status de melhor jogo do console, o que elevou o filme ao status de mito.
Brosnan foi um Bond amaldiçoado. Tinha o cinismo e a aparência necessários para o papel, mas teve o azar de mergulhar em roteiros bombas, como O Amanhã Nunca Morre e Um Novo Dia Para Morrer, de 1997 e 2002 respectivamente. Um Novo Dia Para Morrer era o 20º filme da franquia, e os produtores decidiram fazer deste uma homenagem a todos os outros. O que saiu, infelizmente, foi mais uma sátira do que uma homenagem. Bond começa o filme surfando, o que, por si só, já é assassinar o personagem. O filme segue com ele sendo capturado (!!) e preso (!!!!) por norte-coreanos (!!!?!?!) durante 14 meses (...). Uma tentativa de mudar o foco da série que deu errado (onde é que vimos isso antes?). O que segue a esta ofensa em película é uma trama envolvendo troca de rostos, palácios de gelo e o pior vilão da franquia, Gustav Graves. Com Die Another Day, Bond ameaçava cair novamente no esquecimento, pois a série começava a ser um pastiche de si mesma.
Pierce Brosnan foi afastado e em seu lugar foi escolhido Daniel Craig, que gerou uma resposta quase imediata de fãs do espião, criticando Craig por ser muito feio para o papel. Feio ou não, Craig conseguiu um feito até então inédito: mudar a estrutura da série e não ser um fracasso completo no processo com o filme Cassino Royale, de 2006. Provavelmente, o timing correto, o roteiro bem escrito e a temática bem selecionada sejam responsáveis por isso. O filme mostra um Bond iniciante, em sua primeira missão como agente 00, que é mandado para um cassino em Montenegro para impedir que um financiador de terroristas (LeChiffre) possa recuperar o dinheiro que perdeu em uma ousada manobra no mercado de ações. Bond aqui é humano, fica abalado após matar alguém, se apaixona, comete erros. O personagem é construído aos poucos, Bond aprende que a sutileza uma característica importante aos espiões, aprende que não pode se apegar às mulheres (pois ou elas serão mortas ou o trairão), mas ao mesmo tempo já mostra o ego inflado e a insubordinação, típicas do personagem. O fim do filme mostra a clássica frase ("Meu nome é Bond, James Bond") ao som do clássico tema do espião, marcando ali o renascimento da franquia. Que venha Quantum of Solace, previsto para o fim de 2008, também com Craig no papel de Bond.
Bem, esse post acabou saindo maior que a encomenda, então a análise do personagem fica pra parte 3. Obrigado leitor (es)!!